segunda-feira, março 01, 2010

Eu vejo passar o vento, atento...














Meu testamento de Poeta, quero
Que fique na pureza destas ilhas,
Gravado pelas ondas sem sossego.
Para que o leia o sol,
E o vento,
E quem gosta da Vida e movimento,
- Só escrito
Nestas folhas de espuma e de granito.

Em versos com medida das marés,
Rodeado de cor e solidão:
Talvez tenha beleza a doação,
E sentido…
Talvez que finalmente eu seja ouvido,
E cada herdeiro queira o seu quinhão.

(A riqueza que tenho,
Só em fraga despida
E com velas à vista
A posso dar a alguém…
Sou artista
Por humana conquista
E por me ter parido minha mãe.)

Mas se ninguém quiser o meu legado,
Nestes penedos, recusado,
Terá asas em cima…
Asas abertas sobre cada rima
De silêncio salgado.

Aqui, portanto, fique,
Como um ovo num ninho de saudade.
E que ninguém o modifique.
Só este texto indique
A minha última vontade.

Deixo…
(os poetas, coitados,
Têm quintas de papéis arrumados
E barras de oiro… quando a tarde cai… )
Deixo…
Mas a herança aqui vai.

Nenhum de nós desista, se é verdade!
Ligado às próprias achas da fogueira,
Mantenha-se por toda a eternidade
Senhor da sua inteira liberdade
De dizer o que queira.

Tenha amor aos sentidos
E a toda a criadora excitação.
Pouse na terra os olhos comovidos,
Como remos nos flancos coloridos
Da vaga onde navega a embarcação.

Leal e simples, saiba desvendar
Mistérios que é preciso descobrir:
O gesto natural de semear,
E a fome de colher e mastigar
O fruto que do gesto há-de sair.

Nada queira distante da razão,
Por saber que estiola o que não tem
Sol a jorros a dar-lhe projecção
Na rasa lei do chão
Donde a raiz lhe vem.

Veja passar o vento
Carregado de sonhos e poeira…
Veja-o passar, atento
À beleza do próprio movimento…
Entenda num segredo a vida inteira!

E siga como alegre quiromante
Que mesmo no ludíbrio se procura.
Romeu viúvo que perdeu a amante
E lhe fica constante,
Até que a vai amar na sepultura.

E agora assino e selo o testamento.
Leve-me o barco, e fique a barlavento
Esta bruma de mim.
E que o farol, à noite, quando alguém vier,
Ilumine o que eu digo, e o deixe ler
Até ao fim.

Berlengas, 6 de Julho de 1947.
Miguel Torga, in Diário IV.
foto de B&P

5 contributos:

At 2/3/10 03:40, Blogger manuel disse...

Miguel Torga
Que feliz me sinto relembrando factos talvez estranhos num Mundo mesquinho que entre brumas muitas vezes revoltosas em que o sabor do sal me retempera a minha sempre presenca nuns dialogos cheios de Misterios de Amor , Desesperos e Esperancas !
Miguel Torga !!
Conheci-o na Ilha das Berlengas por casualidade penso eu , quando o Poeta possivelmente compos este Poema . Frequentava eu as ilhas de vez em quando , quando assim se propocionava pois ia buscar livros que o meu grande e bondoso Amigo Constantino Varela Cid me trazia da entao Escola de Pesca para eu poder continuar com a esperanca de que melhorando podesse regressar para acabar o meu curso iniciado nessa Escola o que de facto veio a suceder .
Naquele dia encontrei Constantino Varela Cid conversando com um Sr. que fez a gentileza de me apresentar dizendo que era o Sr. Doutor ... que eu de momento nao consigo recordar . Eu sempre fiquei recordando esse Senhor Doutor porque da maneira que estava vestido ainda que de maneira mais composta pois o seu vestir condizia com o de um pescador ja'arricalhado ...
De boinha tipo espanhola puchada para os olhos , cor de pele queimada , carnes secas seria um prototipo do Homem do Mar.
A' noite Constantino Varela Cid em conversa de despedida disse-me que aquele Senhor que ele me tinha aprentado era um grande Poeta que chamava ja as atencoes de muitas altas individualidades .
Disse-me que ele assinava os seus Poemas com Pseudonimo de ... Torga.
Nunca mais esqueci o nome de Torga pois esse nome era tambem um nome para mim bem conhecido de um individuo que sendo Guarda Pinhal na altura em Peniche tinha por habito correr com as pobres mulheres que iam lavar a roupa no Rio de Sao Domingos tendo eu mesmo assistido a's suas calvagadas contra as forcas do mal que nao obedeciam a's suas ordens .
Passaram-se alguns anos , mesmo muitos e um dia fui visitar a Familia Varela Cid e nessa ocasiao Constantino presenteou-me com uma copia deste Poema manuscrita pelo seu punho !!
Tive esse Poema durante muitos e muitos anos tendo desaparecido quando conjuntamente com os meus singelos contos , historias e Poemas que faziam chora a Santa da minha Estimada Sogra como uma Santa Madalena , os ,eu deixei a' partida
O meu tesouro desapareu nunca sabendo eu como .
E agora apareceu transcrito nos Amigos de Peniche !!!
Talvez designos dos meus Deuses ?
Manuel Joaquim Leonardo

 
At 2/3/10 09:51, Blogger jp disse...

Muito agradeço ter partilhado connosco estas memórias que tão bem completam este post.
Dr. Adolfo Correia da Rocha era o nome verdadeiro do insigne poeta.

Saudações Penicheiras.

 
At 2/3/10 09:52, Blogger ângela m. disse...

Na 6ª Feira fiquei curiosa, quando ouvi falar sobre este texto -até porque sou fã dos diários do Torga-mas, como não encontrei o Diário IV, fiquei com a curiosidade...
Obrigada por mais esta partilha poética. E sendo sobre a "nossa" Berlenga, esta tem um gostinho especial ;)

 
At 2/3/10 18:49, Anonymous jkimilas disse...

é sempre lindo verificar como uma simples postagem ajuda à serenidade.

que bem começaram Março, Ângela e JP!
Peniche só vos pode agradecer.

 
At 4/3/10 05:33, Blogger manuel disse...

e'sempre lindo verificar como uma simples postagem ajuda `a serenidade.

que bem comecaram Marco, Angela e JP !
Peniche so' vos pode agradecer .

 

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